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BÍBLIA CABALÍSTICA
GÊNESIS
ENSINAMENTO DE VAIESHEV
“A Luz estava lá quando eles decidiram vender José”
Na porção desta semana, encontramos uma coisa que ocorre somente dez vezes em toda a Torá. Apenas dez vezes temos o merecimento de ter dois pontos sobre uma palavra. Esta semana temos os pontos sobre a palavra Et (o, em português).
Antes de podermos responder à pergunta sobre por que os pontos estão presentes, precisamos abordar uma outra questão sobre este versículo. O Zohar diz que a palavra Et é dispensável; podemos entender o versículo mesmo sem ela. Na verdade, não existe nem mesmo uma tradução para Et em português ou em qualquer outro idioma.
Isto tudo é muito confuso. A passagem diz: “...a luz estava lá quando eles decidiram vender José.” Mas por que existe um ponto sobre as letras Alef e Tav? Em outro lugar na Torá, não existem pontos quando a Luz está presente. A Luz estava com Abraão e com outros justos, mas não havia ponto algum.
Além disso, devemos entender que a Luz desejava que José fosse vendido para o Egito? Dez pessoas reencarnaram e foram mortas por causa do pecado da venda de José. Se a Luz tivesse a intenção de que os irmãos de José praticassem esse ato, por que houve uma punição depois?
Uma coisa é clara: José tinha que chegar ao Egito. Isto era necessário para que a purificação do povo pudesse ocorrer, o que lhes permitiria receber a Torá. Neste sentido, a ida de José para o Egito era essencial, não pelo seu próprio Tikun (correção), mas pelo Tikun do mundo inteiro. Este, na verdade, é o ensinamento e o poder nos dois pontos – que a Luz do Criador está conosco não somente nas coisas boas, mas também nas coisas que parecem negativas para nós naquele momento.
Suponha que um homem perca seu vôo. Ele fica furioso. Ele tem tanto o que fazer no seu local de destino. Se ao menos ele soubesse que havia uma bomba no avião, ele beijaria o chão a seus pés! A maioria de nós perde a segunda parte do cenário. Mas as pessoas que estão realmente conectadas com a Luz vêem e apreciam a cada momento o que a Luz faz por elas.
A Guemará fala sobre um homem chamado Nachum. Não importa o que ocorresse, ele dizia, “Isso também é o melhor que pode acontecer”. Uma vez, o povo de Israel queria enviar um presente para o rei. Eles pediram a Nachum que levasse o presente, porque ele era conhecedor do caminho dos milagres. Eles o enviaram com uma caixa cheia de pedras preciosas.
Ele partiu, e à noite dormiu em uma hospedaria. Os donos da hospedaria abriram a caixa, roubaram as pedras preciosas, e encheram a caixa com cinzas. Quando Nachum chegou apalácio do rei, a caixa foi aberta e cinzas foram encontradas.
O rei esbravejou, “Será que os judeus estão querendo rir de mim?” Ele ordenou que Nachum fosse morto, mas ainda assim Nachum disse: “Isso também é o melhor que pode acontecer!” Naquele momento, sua pureza e certeza eram tamanhas que ele foi merecedor da presença do profeta Elias, que se aproximou do rei disfarçado de um de seus homens de confiança. Elias disse, “Senhor, essas cinzas são do patriarca Abraão. Quando Abraão lançava essas cinzas, elas se transformavam em espadas. Com as espadas, ele podia vencer qualquer inimigo.”
Atônito com a notícia de tamanha sorte, o rei encheu a caixa com pedras preciosas e mandou Nachum de volta para casa com grande respeito e gratidão. No caminho de volta, Nachum dormiu novamente na hospedaria, onde o dono da hospedaria se surpreendeu de encontra-lo ainda vivo.
O hospedeiro perguntou, “O que você levou para o rei?”
Nachum respondeu, “Apenas o que levei da hospedaria.”
Então, o hospedeiro pegou toda a cinza de sua casa e a levou para o rei. Mas Elias, ainda disfarçado como um cortesão de confiança, disse ao rei que elas não possuíam qualquer poder milagroso. O rei ficou furioso e ordenou que o hospedeiro fosse morto.
Em tudo o que acontece no dia-a-dia, é como se a Luz viesse a nós e dissesse, “Isso o ajudará em sua vida.” Na maioria das vezes, nós não escutamos – e isso constitui um grave defeito. A Luz quer apenas o que é melhor para nós. Ao compreendermos os pontos nesta porção e ao nos conectarmos com seu poder, seremos merecedores de ver o bem em tudo o que acontece.
“E Reuben escutou e o salvou de suas mãos”
Existem ensinamentos na Torá que são extremamente importantes, mas os perdemos porque são mencionados em apenas poucas palavras. Exemplos disso são os eventos na vida de Abraão desde a sua infância até que ele tivesse 74 anos, e na vida de Moisés, da idade dos 13 aos 80 anos. Afinal de contas, não se trata de pessoas comuns: eles são Carruagens do sistema espiritual. Cada momento de suas vidas foi crucial e afeta cada momento das nossas.
De forma similar, nossas próprias ações reverberam através do mundo. Freqüentemente não enxergamos a importância do que fazemos. Cada um de nós possui uma Luz única que somente nós podemos revelar.
Quando Reuben foi salvar José, ele compreendeu que estava fazendo a coisa certa, que era salvar seu irmão, mas ele não soube o efeito que sua ação teria nas gerações futuras. Se Reuben soubesse como a Luz levou em conta seu ato, ele certamente teria emprestado maior significado ao que fez. Isso nos ensina que todas as nossas ações deveriam ser consideradas como se estivessem construindo um mundo todo novo para sempre. Cada um de nós tem que fazer mais a cada momento para revelar a Luz. Nunca podemos saber se “mais uma coisinha” irá mudar não somente nossas vidas, mas também transformará o mundo inteiro.
Sinopse de Vaieshev
Jacob se torna complacente. Depois de todas as suas provas e provações, ele sente que alcançou tudo. É nesse ponto que seu filho José lhe é tirado. Disso, podemos apreender que nunca devemos descansar sobre nossos louros, espiritualmente falando. Devemos estar sempre prontos a crescer para efetuar o trabalho espiritual que o crescimento requer.
Primeira Leitura – Abraão - Chessed
Kutónet Passim – Jacob faz um casaco de muitas cores para José. A palavra hebraica para casaco é kutónet passim, um acrônimo para os quatro anjos especiais que o protegeriam todo o tempo. Embora não tenhamos o código físico hoje, temos tanto o código espiritual quanto os anjos para nos proteger.
Vaishnêhu – Os irmãos estão com ciúmes do relacionamento de José com Jacob. Jacob foi parte responsável por isso porque ele demonstrava favorecer José. Como pais, devemos fazer um esforço adicional para tratar nossos filhos de forma eqüitativa. Embora possamos sentir uma maior afinidade com um ou outro filho, devemos nos esforçar para impedir que isso influencie nossas ações. Se não fazemos esse esforço, somos parte responsáveis por qualquer sentimento de ciúmes que daí resulte.
Vaiachalóm - José tem dois sonhos que revelam as formas pelas quais sua vida será diferente da dos seus irmãos. Essa porção nos mostra o poder dos sonhos. Sonhos predizem o futuro, mas há alguns princípios que devemos respeitar para que possamos compreender e usar nossos sonhos corretamente. Nem tudo em um sonho irá necessariamente ocorrer em nossas vidas, e nem tudo é importante. Por causa disso, devemos selecionar cuidadosamente aquelas pessoas com quem escolhemos discutir nossos sonhos. Sua interpretação terá um impacto no significado do sonho para nós e nas partes do sonho que pareçam importantes. Devemos contar nossos sonhos para alguém que se importe conosco, que nos ame e a quem amemos também.
Segunda Leitura – Isaac - Guevurá
Et – Pontos sobre a palavra ‘Et’ (‘o’ em português)
Em toda a Torá, existem apenas dez ocasiões em que pontos aparecem sobre as palavras, e essa é uma delas. José vai para o Egito, e o Zohar revela que Deus estava envolvido nesse evento. Embora os irmãos tivessem errado ao vender José, a Luz estava sempre no controle. Quando coisas dolorosas ocorrem conosco, devemos sempre nos lembrar de nos conectar com o fato de que a Luz está presente mesmo assim. Nunca estamos sozinhos.
Ish - José está procurando seus irmãos, mas não tem idéia de onde eles estejam. Ele pede ajuda a alguém, e esse homem, cujo nome não é dado, diz a José onde seus irmãos podem ser encontrados. A palavra usada para esse homem é ish. É importante observar que a palavra ish também é usada com referência ao anjo de Esaú. Sabemos que este homem é positivo e o anjo de Esaú era negativo, e ainda assim ambos são mencionados com a mesma palavra. Daí aprendemos que as ações expressam nossa natureza espiritual. Ações são a evidência da nossa consciência. Ish demonstra que podemos ser tanto positivos quanto negativos.
Vaitnaclú – Quando José encontra seus irmãos, eles querem matá-lo. Em vez disso, Reuben os convence a jogar José dentro de um buraco. Mais tarde, os irmãos vendem José como escravo e ele é levado ao Egito.
Como puderam os irmãos fazer isso com José? O Zohar explica que os irmãos sabiam um pouco de Cabala. Com esse pouco conhecimento que possuíam, eles concluíram que era necessário que José vivesse. Os irmãos sabiam apenas o suficiente para se tornarem perigosos.
Este é um excelente exemplo do princípio de que um pouco de conhecimento é algo perigoso. Nunca temos que nos tornar complacentes ou arrogantes com relação ao nosso conhecimento. Temos que ser sempre pró-ativos no sentido de aprender mais, fazer mais perguntas aos nossos professores, nos empenhar para um entendimento maior.
Terceira Leitura – Jacob - Tiferet
Beesrím Késsef – A quantia de dinheiro pela qual José é vendido relaciona-se com a redenção do primogênito. Quando o primogênito é redimido no Pidion Habên, o dinheiro oferecido é para completar um pedaço do Tikun que os irmãos adquiriram pelo pecado de vender José.
Vaiasháv – Reuben acreditava que os irmãos tivessem apenas jogado José em um buraco. Mas ele volta e descobre que eles tinham vendido José como escravo. Cada dia, um dos irmãos tinha a responsabilidade por tudo o que ocorresse durante aquele dia. Reuben era o responsável no dia em que José foi jogado no buraco. Ele se assegurou de que José estivesse a salvo no buraco e de que nada lhe ocorresse enquanto ele ali se encontrasse. No entanto, ele não fez o esforço adicional de retirar José do buraco ou de ajudá-lo a escapar. Ele fez apenas o mínimo. Quando assumimos uma tarefa espiritual, não devemos nos satisfazer em desempenhar o mínimo. Devemos sempre nos motivar a ser pró-ativos, a buscar oportunidades de construir um Receptor.
Vaiavíhu – Os irmãos mostram o casaco de José a Jacob
Os irmãos não sabem como dizer a seu pai o que fizeram com José. Ao invés de revelar a verdade ou mesmo mentir, eles simplesmente levaram o casaco multi-colorido de José, mergulharam-no em sangue de cabra, e o mostraram a Jacob. Na verdade eles não mentiram, mas suas ações fizeram Jacob acreditar em algo que não era verdade.
Jacob, é claro, tinha feito algo muito similar com seu próprio pai. Ele enganou Isaac ao se apresentar com as roupas de Esaú. Sem mentir exatamente, ele fez com que Isaac chegasse a uma conclusão inverídica.
Há muitas formas de mentir. Todas elas no entanto cobram de nós um preço mais adiante, e às vezes o preço é que também mentirão para nós.
Quarta Leitura – Moisés – Netzach
Vaierêd – Yehuda é o irmão que sugere que se venda José
Yehuda faz a sugestão sobre a venda de José. Agora ele está cheio de culpa e deixa sua família. Ele se casa e tem três filhos. Mais tarde, seu filho mais velho desposa uma mulher cujo nome é Tamar. Quando esse filho mais velho morre sem deixar filhos, seu irmão deve se casar com a viúva, para que a linhagem continue. Mas esse irmão também morre. Ambos morreram por causa da sua negatividade.
Vaiômer – Em vez de deixar Tamar se casar com seu terceiro filho (e talvez causar sua morte), Yehuda manda Tamar embora. Depois que a esposa de Yehuda morre, ele decide procurar uma prostituta. Tamar se veste como uma prostituta, e Yehuda acaba tendo relações sexuais com sua nora. O Rei David vem desta linhagem. O que isto tudo pode significar?
O Zohar nos diz que quando uma alma justa está para vir a este mundo, o Satan tenta colocar obstáculos no caminho deste acontecimento. Neste caso, David vem de ancestrais que viveram em situações muito negativas. Quando as circunstâncias parecem suficientemente negativas, o Satan não sente necessidade de intervir. Mas a Luz superou a negatividade, e o Rei David veio a este mundo. Essa também é a linhagem do Messias que virá.
Quinta Leitura – Aarão - Hod
Hurád – José é levado para o Egito como um escravo, mas ele nunca teve que viver sua vida em escravidão. Onde quer que fosse, tornava-se senhor da situação. Por que isto ocorria? Porque José nunca sentiu auto-comiseração ou se viu como vítima. E porque ele sempre mantinha uma consciência elevada e não assumia a consciência de um escravo, ele sempre se tornava senhor da situação.
Sexta Leitura – José – Iessod
Vatômer – A esposa do senhor de José tenta seduzi-lo. José se recusa a ser seduzido pela esposa de Potifar, seu senhor. Ela se agarra a suas roupas, mas ele escapa. Por despeito, ela acusa José de estupro, e ele vai para a cadeia.
Vaianáss – No momento da restrição de José, ele atinge o nível de Iessod, que se esperava que ele atingisse durante sua vida. Aprendemos com José que duas condições têm que ser cumpridas para que alcancemos nosso nível espiritual esperado. Primeiro, temos que passar por uma intensa restrição, e segundo, temos que passar por um processo de purificação.
Quando a esposa de Potifar tenta seduzir José, ele a deseja, mas exerce a restrição. Após esse ato de restrição, José é condenado à prisão, e essa é sua purificação. Ao exercer a restrição e ao nos dispormos a passar por um processo de purificação, podemos nos conectar com nosso nível espiritual mais elevado e completar nosso Tikun. O exemplo de José nos dá a oportunidade e a energia espiritual para isso.
Hassoár – José está na prisão, mas é amado pelo chefe da prisão.
Novamente, José mantém uma consciência espiritual elevada. Ele não se vê como uma vítima, e como resultado, ele se torna o senhor da prisão. A forma como vivemos não é determinada pelas nossas circunstâncias físicas. Nosso nível espiritual é o fator mais importante.
Sétima Leitura – Davi - Malchut
Vaitên - O administrador de vinhos e o padeiro chefe são enviados para a prisão.
Nossos sonhos são a expressão de nossa consciência, e nossa consciência determina o que vai acontecer conosco no mundo. O administrador de vinhos e o padeiro chefe são aprisionados com José, e ambos têm sonhos que os enchem de preocupação. José interpreta seus sonhos e determina que um dos dois, o administrador de vinhos, viverá. Mas o padeiro chefe tem que morrer.
O Zohar pergunta: “Por que José deu essa interpretação? Quais são as diferenças entre os sonhos ?” O administrador de vinhos sonhou com uvas, e uvas se referem à construção do Templo. Uvas (e vinho) têm o poder de elevar o espírito. Esse era um sonho positivo sobre criar algo. Mas o padeiro teve um sonho com cestas de pão, que José entendeu serem uma visão da destruição do Templo. Baseado no conteúdo positivo e negativo dos sonhos dos dois homens, José imediatamente soube dos seus destinos.
Nos sonhos dos homens, havia três cestas de pão e três vinhedos. José interpreta isso como uma referência ao aniversário do Faraó, que ocorreria em três dias. Quando os três dias tivessem passado, tanto o administrador de vinhos quanto o padeiro seriam soltos, mas o administrador de vinhos seria reconduzido à sua posição antiga, enquanto o padeiro seria morto.
Vehiszcartáni - José pede ao administrador de vinhos que interceda por ele junto ao Faraó, mas a Torá diz que o administrador se esquece de José. O Zohar explica que, ao pedir esse favor, José colocou sua esperança nas mãos de um homem em vez de simplesmente confiar na Luz. Ao fazer isso, José na verdade alongou seu processo de purificação na prisão em dois anos.
HAFTARÁ DE VAIESHEV
Esta Haftará claramente compartilha conosco que freqüentemente na vida cedemos muito em troca de muito pouco – nos vendemos barato. Tendemos a nos satisfazer com a gratificação imediata porque não temos a confiança ou a paciência para saber que a plenitude virá.
Existe uma história sobre um pobre homem solitário, que orou para que o Criador lhe enviasse alguém para passar o Shabat. O Criador se compadeceu tanto do pobre homem que decidiu enviar-lhe Elias, o profeta, o que teria ajudado o homem a atingir grandes altitudes espirituais. Enquanto Elias estava se preparando para sua viagem, o homem ficou desesperado e impaciente. Ele decidiu iniciar os serviços de Shabat, indo ao seu estábulo e fazendo a bênção do vinho e do pão, apenas com seu burro por companhia. O Criador viu isso e decidiu que afinal de contas o homem não precisava de Elias, o profeta. O homem passou o resto do Shabat sozinho com sua mula.
A leitura dessa porção nos ajudará a construir nossa confiança na Luz e a nos fortificar para os momentos em que nossa paciência se esgote.