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SRPC
Mateus Soares de Azevedo, o autor de "Mística Islâmica: atualidade e convergência com a espiritualidade cristã" (Ed. Vozes), é Mestre em História das Religiões, pela USP. Atualmente cursa o Doutorado na mesma especialidade, também na USP. É ainda autor de "Iniciação ao Islã e Sufismo" (Ed. Nova Era, 1996) e de "Religião e Esoterismo" (no prelo).
Mateus tem interesse por religião e espiritualidade desde a época em que era estudante universitário. Para ele, o fato de não ser muçulmano lhe permite um certo distanciamento e objetividade em relação ao objeto de suas pesquisas e estudos, ainda que o tema lhe seja simpático.
Ele afirma que seu estudo da mística islâmica é feito de uma perspectiva universalista, abarcando todas as religiões, sem deixar de simultaneamente integrar as particularidades formais das diferentes tradições, incluindo doutrinas, ritos e moralidades.
Ao mesmo tempo, defende um certo apego às tradições e não acha que as religiões vão acabar, nem que devam se modificar naquilo que têm de essencial. A perspectiva de seu livro é claramente de defesa da espiritualidade, mas sem nenhum exclusivismo ou apego a esta forma em detrimento de outra, o que, como ele afirma, pode causar um certo "curto-circuito" nos meios especializados.
Ele é católico de rito oriental, praticante, mas com uma perspectiva peculiar, não "nacionalista", não acreditando, por exemplo, que o cristianismo tenha "superado" o judaísmo. Este continua uma religião integral e válida. Afirma que o cristianismo pode ser visto como tendo surgido de certa forma como uma mística no interior do judaísmo, como um "esoterismo judaico", mas possuindo simultaneamente todas as características de religião autônoma, que a seguir se desenvolveu plenamente.
O judaísmo transmite o legado do Monoteísmo abraâmico ao povo judeu, e o cristianismo por assim dizer transmite este mesmo legado essencial a vários povos. Da mesma forma, o advento do Islã também não significa, para ele, que judaísmo e cristianismo tenham sido superados. Trata-se de religiões para diferentes grupos de povos.
Mateus acrescenta que há muitas semelhanças entre as religiões abrâmicas, ou seja, judaísmo, cristianismo e islamismo e, ainda antes do judaísmo, o abramismo, ou monoteísmo primordial, pois, como afirma, o judaísmo foi codificado por Moisés; antes dele, houve Abrahão, que não era judeu, nem árabe, e é pai dos dois povos; pai dos judeus por parte de Isaac e pai dos árabes, por parte de Ismael, com Agar, a escrava.
Mateus diz que o estudo das diferentes religiões e, mais importante, do que nelas converge, ou seja, seus esoterismos ou místicas, ajudou-o a aprofundar o entendimento da doutrina e das práticas de seu próprio caminho espiritual.
Leia abaixo a entrevista com Mateus Soares de Azevedo.
iG Ler - O que é mística?
Mateus Soares de Azevedo - É curioso que, em inglês, mística vem da palavra mist, que significa névoa, neblina. Etimologicamente, portanto, já que em grego há o mesmo significado, mística está ligada ao domínio dos mistérios, à experiência direta do mistério dos mistérios, que é o divino.
Ela também pode ser vista como o lado interior, ou esotérico, de toda tradição religiosa. Toda religião, seja o islã, o cristianismo, o judaísmo ou o budismo têm as suas dimensões interiores e exteriores. A dimensão interior é chamada de esoterismo, a exterior de exoterismo. Mística e esoterismo, à parte algumas sutilezas, podem ser considerados sinônimos.
A mística é a dimensão contemplativa, o miolo, o centro, o coração da religião, aquilo que se abre para o universal. Por isso que o verdadeiro ecumenismo deve ser feito por meio das místicas.
Um autor que eu reputo como o mais importante filósofo das religiões no século XX, Frithjof Schuon , cujo primeiro livro se intitula justamente "A Unidade Transcendente das Religiões", concebeu um esquema muito interessante do inter-relacionamento das várias religiões.
Ele nos pede para imaginar uma montanha, cujas várias encostas são ocupadas uma pelo Judaísmo, outra pelo Islã, outra pelo Budismo, outra pelo Cristianismo. Ele nos pede para imaginar um traço na horizontal, suponhamos no meio da montanha, que separa o exoterismo (na parte inferior) do esoterismo (na parte superior da montanha), separando a religião convencionalmente entendida da mística.
Este corte atravessa todas as religiões, com seus domínios esotéricos e exotéricos, ou domínios da ação e da contemplação. Quanto mais se eleva na direção do pico da montanha, mais as religiões se aproximam umas das outras. É neste sentido que o melhor caminho para um entendimento real entre as diversas perspectivas religiosas é por meio das místicas, porque é nelas que as religiões estão por assim dizer mais elevadas e portanto mais próximas umas das outras.
iG Ler - Qual seria então a diferença entre mística e religião no caso da tradição islâmica?
M.S.A.-A Shariah, a lei islâmica, é a dimensão exotérica, e o Sufismo a esotérica. Nas outras religiões, temos igualmente contrapartidas desta abordagem. O lado exterior diz respeito ao cumprimento das regras e prescrições, os deveres morais que cada religião estipula, o campo da ação. E a mística é o campo da contemplação, incluindo práticas que a favorecem, como a oração, a meditação, o jejum, os sacramentos. Mística e religião são como que duas dimensões de uma mesma realidade.
iG Ler - E quais são as particularidades da mística islâmica?
M.S.A.-A religião possui três grandes vias de acesso, e isto é universal. Na Índia, fala-se em |karma, bhakti e jnana, que são os caminhos da ação, da devoção e do conhecimento. No Sufismo, a mística islâmica, há as concepções de makhabah, mahabah e marifah, ou vias do temor, da devoção, e do conhecimento. No cristianismo, temos as vias de Marta (ação) e a de Maria (contemplação); esta última englobando devoção e conhecimento.
Vemos assim que todas as religiões, de uma forma ou de outra, possuem estes três caminhos. O que há de particular na mística islâmica é que ela concede uma ênfase especial na dimensão do conhecimento, ou gnose em grego. Claro, não se trata de um conhecimento livresco, puramente informativo, trata-se do conhecimento sagrado. Em suma, o que é particular à mística islâmica então é a presença deste característico elemento sapiencial.
iG Ler - Como se distingue o caminho da devoção do caminho do conhecimento?
M.S.A.-Há uma história indiana que responde de certo modo à sua pergunta. Na Índia, havia um grande místico, um bhakta (devoto), que leu nas Escrituras hindus, os Vedas, que o barro e o ouro são a mesma coisa. Mas ele não conseguia entender isto, como o barro que não vale nada, e o ouro, tão cobiçado elos homens, podem valer a mesma coisa?
Para tentar entender o que as escrituras diziam, ele procurou fazer o que a sua natureza e seu entendimento lhe indicavam. Então fez jejum, rezou com particular devoção, fez voto de silêncio. Uma semana depois disso, ele teve um sonho especial , no qual uma visão lhe mostrava claramente que para ele barro e ouro são uma só e mesma coisa.
Quer dizer, o seguidor da caminho da devoção -a bhakti, em termos hindus - realizou uma série de atos devocionais para entender algo que o jnanin, ou o adepto da via do conhecimento, entende de forma quase que imediata e intuitiva, ou seja, neste mundo - o mundo do tempo, do espaço, do número, da história -, barro e ouro são coisas diferentes, mas para o metafísico ou o místico, que vê através e para além deste mundo, os dois não têm diferença. Espiritualmente, tanto faz o ouro ou o barro , pois o ouro compra bens materiais, mas o místico tem o seu coração voltado para o eterno, para o mundo vindouro, no qual estes bens não têm valia.
iG Ler - Qual a origem do termo Sufismo?
M.S.A.-Bem, em árabe suf é lã. Nos primórdios do Islã, no século 7 D.C., os místicos costumavam vestir roupas de lã. Há inclusive um hadith (tradição do profeta Maomé) que diz que quando Moisés subiu ao Sinai para o encontro com Deus, ele usava uma veste de lã. Então, desde o início do Islã, a lã está de alguma forma associada à mística. Esta é uma das possíveis interpretações. Outra é que deriva do termo sufya, que significa pureza; o sufismo seria então a doutrina e a prática da pureza, e os sufis seriam os puros. Há ainda uma outra associação, bem mais distante e incerta, com o termo Sophia em grego, que significa sabedoria. Ou seja, há um certo mistério que envolve o nome. Mas isto tampouco deixa de ter sentido, pois a mística é de fato misteriosa.
iG Ler - Em que o Sufismo se aproxima da cabala e das místicas cristãs?
M.S.A.-Estas místicas todas pertencem à mesma família religiosa do monoteísmo semítico abraâmico. Têm a mesma concepção de Deus, como criador de todas as coisas, legislador do mundo, auxiliador dos homens e julgador final.
Todas aceitam a existência do mundo vindouro, no qual os seres serão recompensados ou punidos de acordo com o conhecimento que tiverem e o bem que fizeram. Todas visam enfim à experiência do contato direto com Deus, em que grau for. Suas práticas rituais são bastante distintas, é verdade, mas por trás de tudo há a oração, a concentração, a meditação, o jejum, o retiro espiritual, que são em essência comuns a todas elas. Finalmente, todas enfatizam a necessidade da prática das virtudes, sobretudo a humildade e a generosidade.
iG Ler - Como os sufis vêem Jesus, Moisés e o Buda?
M.S.A.-Os sufis, seguindo aliás o Corão, que é o centro da religião islâmica, vêem Jesus e Moisés como profetas , Moisés dos hebreus e Jesus dos cristãos. Eles são os intermediários entre Deus e os homens, são aqueles que trouxeram a revelação divina para seus respectivos povos. Os sufis só podem ter então um grande respeito por estes eminentes porta-vozes da sabedoria divina.
Jesus é visto como modelo de santidade, modelo de contemplação e de interioridade. E alguns sufis ao longo da história têm ido além disso, na medida em que têm uma particular afinidade com algum profeta. O cheikh al-Alawi, que foi o grande representante do sufismo no século XX, tinha por uma exemplo uma evidente afinidade com Jesus, a ponto de alguns ocidentais que o conheceram acharem que sua própria figura lembrava o Jesus dos ícones orientais. Mas houve ao longo da história outros mestres sufis que tiveram afinidade seja com o profeta Elias, ou com João Batista e outros profetas.
Cristãos e judeus são considerados pelos muçulmanos como "povos do Livro", isto é, que têm um livro sagrado revelado, já o Buda não faz parte desta família semita monoteísta, mas não obstante há sufis do mundo extremo-oriental que vêem o Buda como um enviado ou um profeta também. No Corão está escrito que Deus enviou um profeta a cada povo, e o Buda é então o "profeta" dos orientais, segundo alguns sufis.
iG Ler - O que é o Corão? O que Maomé significa para os sufis?
M.S.A.-O Corão é o centro da religião islâmica. É a revelação, é a mensagem divina. E Maomé é o portador da revelação, pois o Corão foi revelado através de Maomé. No Cristianismo o centro não é o livro, é a pessoa de Jesus Cristo. Os Evangelhos não têm a mesma função no Cristianismo que o Corão tem no Islã.
O Logos no Islã é o Corão, o Logos no Cristianismo é Jesus Cristo. Curiosamente, assim como Maomé é o profeta iletrado que engendrou um livro, no Cristianismo, Maria é a Virgem que gerou o Verbo Divino. O Corão , além de transmitir ensinamentos e prescrições, tem uma presença, uma força teúrgica. Como os católicos colocam uma cruz ou uma imagem de santo em casa como proteção, o muçulmano usa o Corão para este fim.
Maomé representa o modelo a ser seguido pelos sufis, como homem sábio e justo, como místico e como governante.iG Ler - Por que o Islã é considerado como a última religião?
M.S.A.-Isto está no Corão, que apresenta o Islã como a última grande revelação dirigida à humanidade. A História até agora só tem confirmado esta afirmação. De fato, depois do advento do Islã, no século 7, não surgiu mais nenhuma tradição espiritual mundial com sua dimensão e sua importância, apenas ramificações de tradições anteriores.
iG Ler - Não-muçulmanos podem ter acesso ao sufismo?
M.S.A.-Sim e não. Teoricamente, os não-muçulmanos podem ter acesso na medida em que podem ler os livros, estudar suas doutrinas, ter uma idéia dos ritos dos sufis, podem se beneficiar da leitura da vida dos santos sufis. Em suma, a parte especulativa está aberta aos interessados, mas a parte prática ou operativa não, pois é exclusiva aos seguidores do Islã. Nenhuma irmandade sufi tradicional aceitará um aspirante que não tenha sido antes batizado no Deus uno do Islã e seja familiarizado com as doutrinas e práticas rituais islâmicas. E também com a prática das virtudes fundamentais, isto também é muito relevante para o aspirante a sufi.
iG Ler - O verdadeiro misticismo não estaria muito distante da vida das pessoas no mundo contemporâneo?
M.S.A.- De fato, as pessoas em geral estão cada vez mais enfronhadas no mundo material, na pressa do mundo moderno, na pura horizontalidade, sem perspectiva vertical, sem um "escape" espiritual para as avassaladoras preocupações que o mundo engendra. Mas é preciso entender, sobretudo depois de uma certa idade, com a experiência que a vida traz, que a transcendência e a espiritualidade propiciam sentido à vida, e daí serenidade.
Então, as pessoas podem encontrar na religião um centro que a vida moderna não oferece. Algo que não muda, que é firme e estável, aconteça o que acontecer. No mundo moderno tudo muda, o tempo a tudo consome. É preciso então ter um ponto, um centro a partir do qual tudo se harmonize e se encaixe. E a religião pode ser este centro. E a mística especialmente, pois ela é o coração da religião.
O homem moderno está muito longe da mística, mas para infelicidade nossa, pois se ele tivesse um centro, tudo ficaria mais fácil. Face às turbulências, agitações, inseguranças da vida contemporânea, a mística pode oferecer um abrigo, um refúgio, uma defesa.
iG Ler - É preciso se afastar do mundo para ser místico? É possível trabalhar, por exemplo, em um site na internet e seguir uma via mística?
M.S.A.-Sim, isto é possível. Não há impedimento, porque não há necessidade de toda pessoa ser um monge. E isto nem no cristianismo, que é uma religião fortemente marcada pela tradição monástica. Não há necessidade de se separar fisicamente do mundo para seguir o via mística. O que é importante é que o mundo não seja uma divindade, um objeto de culto por assim dizer. Pode-se ter uma vida que concilia um trabalho necessário e honrado, e ao mesmo tempo seguir a espiritualidade.
Não há contradição, pois trata-se de dois planos diferentes, o da ação e o da contemplação. Pode-se ter tranqüilamente uma ocupação diária e preencher espiritualmente os momentos livres que temos ao longo dia, ao invés de dissipá-los em distrações ou vãs preocupações; estes momentos podem ser bem aproveitados.
Quando se vai da casa para o trabalho, seja de automóvel, de metrô ou de ônibus, a pessoa pode se concentrar, se recolher, meditar. O mundo contemporâneo está distante da mística, mas a mística não está distante do mundo contemporâneo, é preciso um pouco de esforço de concentração, e também um pouco de imaginação. E, é claro, um guiamento apropriado.
iG Ler - O que é o pseudomisticismo? Quem são seus representantes mais destacados?
M.S.A.-É ver a mística como totalmente separada da religião; é a mística sem a moldura religiosa. É o esoterismo sem o necessário exoterismo. É o miolo sem a casca. É a utilização de fragmentos de doutrinas ou de práticas místicas por aqueles que passaram por exemplo por uma escola mística legítima, e depois sairam sem completar sua formação, ou que foram "saídos" , mas que sem legitimidade continuam a utilizar e a transmitir essas práticas, as quais eles não entenderam e não realizaram em sua plenitude.
No sufismo há a silsilah, que é um critério para se atestar a autenticidade da fraternidade e do mestre. A silsilah dá a linhagem mística, é por assim dizer a árvore genealógica de determinado mestre, de quem ele recebeu a iniciação. Todo mestre sufi autêntico tem numa das paredes de sua zawiah ("capela") esta quadro com a silsilah, que mostra toda a sua filiação mística. Em meu livro, reproduzo a silsilah do cheikh magrebino al-Alawi, que atesta que ele está ligado à cadeia espiritual do sufismo. Um pseudomestre sufi não tem isto para mostrar.
Bom número de especialistas e estudiosos destas temas consideram que um dos mais perniciosos pseudogurus do século XX foi o prestigitador de origem greco-armênia George Ivanovich Gurdieff. Ele dizia trazer um suposto "quarto caminho", superior ao do monge cristão, ao do yogue hindu, e ao do sufi.
Ele viveu na primeira metade do século passado e foi contemporâneo do metafísico e esoterista francês René Guénon, de quem a meu ver Gurdieff foi apenas uma sombra, seus "ensinamentos" constituindo uma paródia da mensagem universalista de Guénon, que aliás quando perguntado disse para "fugir de Gurdieff como da peste".
Sendo um esoterista, Guénon enfatizava a necessidade de ligação com a estrutura religiosa de cada tradição, mas Gurdieff dizia que seu quarto caminho dispensava do "fardo" da religião e todo o "supérfluo" conservado pela tradição. Ele dizia que seu método era o do homem "astuto". Tanto é assim que alguns especialistas sustentam que Gurdieff "tomou emprestado", astutamente é claro, numerosas idéias e técnicas dos derviches com os quais entrou em contato de forma superficial, já que ele não estava interessado de fato na pura espiritualidade e na sabedoria, mas em fenômenos e feitos paranormais.
Outra figura citada neste contexto é o indiano Krishnamurti. Ele prosperou em cima do ataque a todas as religiões, todas as místicas, todos os gurus, que segundo ele iludiam e aprisionavam o homem; ele posava de adversário de toda religião.
Mas Krishnamurti paradoxalmente estava propondo por detrás de suas teses sempre muito vagas, nas quais tudo ou quase podia se encaixar, a não-religião como religião, e o não-guru, ele próprio, como o maior guru. Ele encarna a clássica contradição do relativismo. É como se ele dissesse que todo homem é mentiroso, mas ele se "esquece" que também é homem e como se, num passe de mágica , escapasse da verdade única e inescapável a qual ele acaba de enunciar. Ele atacava todas as vias espirituais, mas subrepticiamente também estava propondo um caminho. Fustigava a instituição mesma do mestre espiritual, colocando-se na prática como única alternativa.
iG Ler - Seu livro critica o ensino moderno por sua natureza anti-espiritual. Comente, por favor, sua posição.
M.S.A.-O ensino moderno é preponderantemente materialista, é puramente "horizontal", abafa a dimensão espiritual do ser humano, a dimensão "vertical", e sustenta que pode-se viver apenas de pão. Ao contrário do que Jesus pregava, ele que ensinava que o homem vive de pão e de espírito. O ensino moderno despreza a sabedoria tradicional, despreza as religiões e as místicas. É toda uma dimensão do real que fica abafada.
Filosofia significa amor da sabedoria, o ensino moderno dá lugar à misosofia, o ódio da sabedoria. Leva as pessoas a acreditarem que a felicidade está apenas na posse de bens materiais, como se o ser humano fosse uma abelha ou uma formiga. Obviamente que não podemos ser contra um certo conforto, mas como um meio com vistas ao pleno desenvolvimento do ser humano, e não como um fim em si.
iG Ler - Como vê as relações entre as religiões no mundo hoje?
M.S.A.-Parece-me que o entendimento que há entre as religiões hoje é muito mais político e diplomático do que verdadeiramente espiritual. Não me parece que haja um entendimento em profundidade das religiões outras que a nossa. Há um acordo formal, para restringir as desavenças mais agressivas, é um ecumenismo "horizontal", não espiritual, que compreende a verdade da outra forma religiosa.
De outra parte, isto é de certa forma compreensível, dado que toda religião, pelo menos em seu nível mais convencional, crê ser a detentora exclusiva da Verdade e da capacidade de salvação. Este entendimento mais profundo a que me refiro na verdade só pode ser alcançado no plano do esoterismo, não do exoterismo, da "unidade transcendente das religiões" de que falam Frithjof Schuon e René Guénon, os principais porta-vozes da Filosofia Perene do mundo contemporâneo (sobre os quais Mateus fala adiante).
iG Ler - Qual foi o maior mestre do sufismo? Há algum mestre comparável hoje?
M.S.A.-Maomé é por assim dizer hour concours. É como se se perguntasse qual o maior místico do Cristianismo; a resposta, obviamente, seria o próprio Cristo. Assim, é claro que o maior mestre foi o fundador mesmo do Islã e do Sufismo, Maomé.
Como escreveu Schuon: "Maomé instituiu duas correntes tradicionais simultaneamente solidárias e divergentes: uma legal, comum e obrigatória (o Islã), e outra ascética, particular e vocacional (o Sufismo)".
À parte o profeta , podemos dizer que os grandes mestres do sufismo ao longo dos séculos foram os seguintes. Mohiddin Ibn Arabi, nascido em Múrcia, Espanha, na época medieval. Foi um "teósofo", provavelmente o mais influente formulador doutrinal do sufismo de todos os tempos.
Há também o grande Rumi, poeta e fundador da irmandade dos derviches rodopiantes, até hoje existente, com livros de poesia até hoje traduzidos em línguas ocidentais. Há que se mencionar também al-Ghazali, jurista e sufi do século 11, autor prolífico; Al-Hallaj, o místico mártir de Bagdá, e saidah Rabiah, mística portentosa dos primórdios do Islã.
Mais próximo de nós no tempo, há o grande cheikh al-Alawi, que viveu no norte da África na primeira metade do século XX e cuja tariqah teve milhares de discípulos, entre eles alguns intelectuais europeus. Foi o qutub, o "pólo" espiritual da época, segundo os sufis.
Vivemos na época da chamada globalização ou mundialização. Em razão dos meios de comunicação e de transportes, os diferentes povos e culturas do mundo estão fisicamente próximos uns dos outros, mas muitas vezes sem entendimento profundo das tradições espirituais do outro. O mundo de hoje é também marcado pelo predomínio da informação e do conhecimento.
Isto vale tanto para os aspectos mais horizontais e mundanos (como por exemplo o fato de os países mais poderosos hoje serem os que detêm a tecnologia e o conhecimento científico de ponta), como vale também para o campo espiritual. Creio que esta é a época do conhecimento também no campo espiritual .
É a era do conhecimento sagrado também, não apenas do conhecimento livresco e puramente informativo. Neste sentido que eu gostaria de introduzir nesta sua questão os nomes já citados nesta entrevista de Frithjof Schuon (1907-1998)e René Guénon (1886-1951).
Eles foram a meu ver os grandes porta-vozes desta sabedoria universal e simultamente tradicional que abrange as sabedorias de várias épocas e continentes, sabedoria esta que se corporificou na escola da Filosofia Perene, na qual o elemento sapiencial sobressai nitidamente.
É curioso que o primeiro degrau do "nobre caminho"ensinado pelo Buda seja justamente a verdade, ou conhecimento correto. Cristo também enfatizou este ponto, ele disse: "Buscai a Verdade e ela vos libertará". Pois bem, estes dois visonários que foram Schuon e Guénon colocam então justamente o conhecimento sagrado, a verdade supraformal, essencial, no centro de sua mensagem.
Por enfatizarem o conhecimento sagrado e a universalidade desta sabedoria, comum na essência a todas as civilizações tradicionais (seja a hindu, a cristã, a budista, a judaica, a islâmica ou a indígena), é que eles são a meu ver os autores mais interessantes e estimulantes para aqueles interessados na verdadeira espiritualidade hoje.
Seus livros expõem de forma muito bela os tesouros da sabedoria pele-vermelha, budista ou cristã, surpreendendo-nos com a originalidade e o alcance de suas visões. Eles têm um profundo respeito pelas religiões, mas nenhum apego a formalismos ou nacionalismos religiosos.
Desta forma, creio que podemos fazer aqui uma distinção entre as várias formas de misticismo das distintas religiões (o sufismo no Islã, o Hesicasmo no Cristianismo, a Cabala no Judaísmo, o Zen no Budismo), e de outra parte, como diz o grande escritor britânico de Religião Comparada, William Stoddart, as expressões da sabedoria supraformal, que vão além dos limites de determinada forma religiosa, como o Platonismo, o Vedanta e, em nossos dias, a "Filosofia Perene".
Há em português uma excelente introdução ao pensamento de Schuon que é este pequeno grande livro, "O Homem no Universo" (Ed. Perspectiva). De Guénon, temos os extraordinários "Símbolos da Ciência Sagrada" (Ed. Pensamento) e "A Crise do Mundo Moderno" (Editorial Vega, Lisboa). Em suma, mediante o universalismo de Schuon e Guénon, o essencial das mensagens das várias religiões e místicas - desconhecidas umas das outras em grande medida - é por assim dizer reunido e congregado; cada uma delas traz a "cor particular" de sua própria origem, e Schuon e Guénon trazem a unidade mediante a "luz incolor"da Filosofia Perene.
Em L.I.F. Ananka F.L. Br